A educação no Brasil e o eterno jogo em que todos perdem

Mais dúvidas do que certezas. Respostas parciais ou silêncios aos questionamentos. Essa é a sensação mais recorrente que tenho tido quando começo a conversar com algum(a) colega docente, a ler algum texto ou a assistir a alguma live sobre educação, pandemia, século XXI… Lembro que os anos 2000 começaram carregados de expectativas: como seria a ampliação do uso da internet? Em que medida os países iriam conseguir gerenciar os problemas com migração, desemprego? Como se estabeleceria o consumo na era do e-commerce? O que esperar das “novas” relações de trabalho? Ocorreria o bug do milênio? As perguntas poderiam seguir por milhares de caracteres. A educação – essa potência de palavra porque potente no impacto que causa à vida das pessoas, famílias, comunidade e sociedade – se misturou às inúmeras pautas. Era premente discutir o papel da educação na formação das pessoas, a relevância de alinhamento dos cursos de graduação e pós-graduação às necessidades do mercado de trabalho, o lugar do docente na geração de universitários millennials (nativos digitais, hiperconectados, afeitos aos estímulos visuais, ambientados em uma sociedade solapada por informações difusas…), a inclusão das pessoas com deficiência em escolas regulares e no ensino superior, a limitação da prova como ferramenta histórica de avaliação (que ainda parece tão necessária quanto ineficiente). Ao mesmo tempo, no Brasil, essas questões sempre partilharam espaço com problemas estruturais: índices significativos de desemprego, grave desigualdade socioeconômica, crônico déficit habitacional nos grandes centros urbanos etc.. Essa concorrência de urgências enviesa os debates, de fato, mas sempre me pareceu uma desculpa, uma espécie de salvo conduto para postergar o inadiável: a construção de um plano nacional de educação de, no mínimo, 2 décadas, que contemple uma proposta capaz de conectar o processo de aprendizagem desde a educação infantil ate o ensino superior. Entendi que não havia (ou há) priorização da educação no Brasil, que vários temas são mais midiáticos e rentáveis politicamente, que é difícil construir e implementar um projeto que não deve estar sob a batuta de um(a) gestor público(a), porque essa ação precisa ser colaborativa, independente, contínua para que possa se fortalecer com os equívocos, avaliações periódicas e ajustes respectivos. Bom, ainda me debatia para compreender essas questões quando março de 2020 se impôs, trazendo a declaração oficial da Organização Mundial de Saúde de que o mundo vivia a pandemia da COVID-19. De lá pra cá, nesses quase 15 meses, o Brasil tem o macabro saldo de mais de 470 mil óbitos, uma média de 2 mil mortos por dia nos últimos meses, menos de 25% da população com a primeira dose da vacina. O que consigo enxergar com alguma lucidez, em meio a tanto descalabro, é que a educação (seja doméstica, básica ou acadêmica) tem sido o fundamento da esperança de boa parte das pessoas. A compreensão da importância de higienizar constantemente as mãos (com água e sabão ou álcool a 70%), a capacidade de empatizar com o outro e não aglomerar, a resiliência para permanecer em isolamento sempre que possível, a dedicação de migrar para o ensino on line em meio a uma pandemia, o compromisso de trabalhar em meio ao caos das unidades de saúde abarrotadas, a confiança de que cientistas e pesquisadores(as) conseguiriam desenvolver vacinas são alguns exemplos de como a educação do século XXI não disputa espaço com outras pautas porque é, na verdade, o fio condutor para conseguirmos superar emergências sanitárias e de saúde, encontrarmos o diálogo entre o humano e o tecnológico, estabelecermos o pano de fundo para relações humanas e institucionais igualitárias. A educação é a ferramenta mais útil na construção de soluções para problemas estruturais, seja no século passado seja no século XXI.

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