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A Condição Humana

Autora: Ludmyla Franca-Lipke


A Condição Humana é uma das obras principais de Hannah Arendt (1906-1975). Publicado em 1958, o livro se propõe a “pensar o que estamos fazendo” a partir da investigação da vida ativa e suas dimensões: o trabalho, a obra e a ação. Trata-se de uma crítica da sociedade moderna comprometida com a possibilidade da política.

A vida ativa diz respeito ao modo de existência do ser humano no mundo e o impacto que a presença humana na Terra possui não apenas para a vida orgânica no planeta (inclusive a nossa), mas também para a vida em suas dimensões social e política. Elas moldam a existência do indivíduo perante os demais sujeitos em vista de dois espaços: o privado e o público.


A esfera privada compreende os espaços doméstico, íntimo e a satisfação das nossas necessidades vitais, inclusive afetivas. É o espaço de nossas relações exclusivas, que, para Arendt, dispensam justificativa. Nele, nós não somos livres. O condicionamento às circunstâncias da vida orgânica organiza as relações, que, para usar um léxico estranho a Arendt, mas pertinente a suas críticas, são pautadas aqui por critérios de dominação, com divisão de tarefas e estabelecimento de hierarquias, em que os sujeitos não gozam nem de igualdade, nem de liberdade.


A esfera pública, por sua vez, é o reino da liberdade e da igualdade, em que a política se realiza no espaço entre os indivíduos. Em oposição à esfera privada, a esfera pública é o lugar das escolhas que importam a todos, das deliberações, do diálogo e dos feitos. Sobretudo, é o espaço da ação. É na conceituação desse espaço que a influência dos gregos antigos sobre Arendt aparece com destaque. Ela não denota, no entanto, nostalgia de uma separação absoluta entre as esferas, e sim um esforço de compreensão e de conceituação, para refletir sobre como as atividades da vida humana se desenvolvem e os desafios impostos pelas circunstâncias de nosso tempo. De novo, a pergunta central de A Condição Humana é: o que estamos fazendo.


Arendt se debruça sobre esses aspectos a partir da tradição clássica dos gregos e romanos, e também recorrendo a conceitos da tradição filosófica europeia, notadamente a alemã. Inspirada pelas ideias de Santo Agostinho, retoma a ideia do ser humano como um começo, invertendo a perspectiva de reflexão —que, na filosofia, parte da cogitatio mortis— para o nascimento: em suas palavras, o “milagre do novo”. Nessa esteira, Arendt reflete sobre o papel do perdão e da promessa na política, a condição do homem moderno na sociedade de massas e desenvolve o conceito de amor mundi, do qual deriva o dever de responsabilidade e cuidado pelo mundo.


Um livro fundamental para o exercício de reflexão acerca de nosso tempo e dos desafios postos diante de nós, A Condição Humana não nos oferece respostas prontas. Antes, o propósito da obra é nos ajudar a compreender nossa realidade e inspirar nossa imaginação a construir saídas.


Boa leitura!


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