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Estado, Pandemia e Mulheres - Parte 2

Atualizado: 25 de Set de 2020

Estado, Pandemia e Mulheres: educação à distância como a nova imposição estatal em prol do patriarcado


Autora: Mônica Sapucaia

Artigo publicado na Revista Latinoamericana Del Colegio Internacional de Filosofia


Em relação aos direitos sociais podemos dizer que a Educação foi a campeã do mesmo século XX. Praticamente todos os países passaram a oferecer educação pública as suas crianças. Em 1976 apenas 65,1% das pessoas eram alfabetizadas, em 2018 eram mais de 86% (WB,online).


Nessa seara as mulheres arrasaram, de iletradas passaram para a maioria das alunas dos cursos superiores no mundo todo. No Brasil, por exemplo, são maioria no Direito, na Medicina, na Arquitetura, respondendo à lenda de que a educação superior seria a porta de entrada para os mercados de trabalho valorizados e o caminho a autonomia econômica e a ascensão social.


A partir da lógica de que a força de trabalho da mulher é necessária ao capitalismo, fomos nós, em busca de um lugar ao sol. Nessa caminhada fomos nos deparando com as dificuldades de transitar por um mundo público desenhado para e pelos homens, e mesmo que as amarras legais estivessem a ser retiradas, os preconceitos, as reservas de mercado e principalmente o exercício da maternidade e dos cuidados nos tiravam, e ainda tiram, oportunidades de participar da sociedade capitalista de forma equânime.


Não cabe aqui gastarmos tempo expondo os dados da desigualdade de gênero, mas sabemos que as mulheres ganham menos do que os homens em todos os lugares do mundo. Somos menos de 30% das parlamentares globalmente, menos de 20% das CEO das maiores empresas. Antes mesmo da pandemia, ainda faltava muito para que a igualdade, de fato, se materializasse.


Isto posto, uma das coisas que as mulheres vêm a reivindicar desde que o trabalho remunerado externo se tornou uma realidade é a divisão das tarefas domésticas e de responsabilidades com a prole.


Aos homens essa responsabilidade pouco se transferiu, apesar de em alguns países, licenças-parentalidades terem sido implantadas e os afazeres domésticos divididos, as estatísticas mostram que não foram com os homens, que as mulheres se apoiaram para conseguir tempo para o trabalho, mas com o Estado, especificamente nas escolas.


A permanência das crianças nas escolas, principalmente em período integral foi o suporte mais importante para que as mulheres pudessem redimensionar o tempo ao preenchimento de postos de trabalho. Além da escola regular, creches para os menores, atividades pós-escolares e programas de contra turno foram, até a pandemia, o alicerce das mulheres urbanas ao emprego.


Foi então que a pandemia chegou, desmontando o nosso modelo de vida, parando a roda do mundo, estacionando os aviões, diminuindo as linhas de produção, aprofundando as crises econômicas em curso, como no Brasil e ressignificando o Estado e a opressão às mulheres.


A casa, espaço ainda de domínio feminino, se tornou o local de passagem do tempo. Os homens que pouco ali ficavam e que pouco dali se preocupavam se viram obrigados a participar dos afazeres domésticos, do cuidado com os filhos e com os idosos. Muitos se depararam com inúmeros afazeres que nunca souberam existir e visualizaram uma carga de trabalho que não estavam habituados a carregar.


Os índices de violência doméstica aumentaram consideravelmente. As crianças e as mulheres muitas vezes se tornaram vítimas mais vulneráveis na mão dos agressores e a resposta estatal se tornou mais inefetiva e demorada.


As mulheres pobres, especialmente as mulheres negras, se viram como empregadas de atividades essenciais. A economia do cuidado como enfermagem, cuidado de idosos, limpeza entre tantas outras funções que historicamente foram desvalorizadas, mal remuneradas e relegadas às mulheres pobres se tornaram funções ainda mais ingratas quando obrigaram as suas executoras a manter a rotina em quarentena, expondo à si e a sua família aos riscos da doença.


As mortes, o desamparo, a solidão e o medo que a todos assola têm sido especialmente cruéis conosco. As desigualdades se aprofundam e as opressões aumentam. No entanto, o intuito é debater um ponto específico: a imposição do trabalho remoto e da educação à distância.


Quando as políticas de distanciamento social começaram a ser implantadas, o discurso mais presente era “slogan” de que não estávamos de férias. Orientados pela preocupação com as demandas do capital e os seus efeitos na economia, os Estados que optaram por impor limitações de deslocamento e aglomeração se encarregaram de autorizar meios para que a produção de bens e serviços não fosse completamente interrompida. Por isso foram autorizados os teletrabalhos para atividades que até então eram necessariamente presenciais.


As regras foram flexibilizadas e as exigências relativizadas. Homens e mulheres que ainda detinham empregos foram direcionados aos home offices, muitas vezes sem apoio suficiente, utilizando da própria estrutura e trabalhando por salários menores e com cargas maiores. Paralelamente, a permanência de mais tempo em casa fez com que aumentassem os afazeres domésticos, impondo mais tempo e trabalho principalmente às mulheres.

Na mesma esteira as crianças foram retiradas da escola e com o mesmo “slogan” adaptado fomos informadas de que não poderiam perder o ano de estudos por isso seria disponibilizado o ensino à distância.


Cada país e região aos seus moldes desenvolveram mecanismos de oferecer aulas online ou por televisão, rádio ou mesmo apostilas aos alunos e alunas da rede de ensino. Encima da recuperação da sua importância no imaginário da sociedade, o Estado decide de forma impositiva em manter o ano escolar porém esqueceram de um detalhe: não combinaram com os russos, ou melhor, com as russas.


As crianças, até 12 anos, precisam de supervisão pedagógica constante para administrar o processo de aprendizagem, as tecnologias nem sempre são de fácil manuseio. O cumprimento dos horários e prazos carecem de permanente vigilância. As crianças em processo de alfabetização precisam de apoio para ler e entender atividades. Além disso, muitas famílias têm mais de uma criança em momentos diferentes de aprendizagem e com necessidades distintas de apoio. Essas tarefas não são possíveis virtualmente.


Sozinhas as crianças não conseguem seguir a educação à distância, porém isso não é uma descoberta da pandemia ou um erro de metodologia. Os órgãos governamentais para a educação sabiam muito bem que a educação à distância precisaria de um executor na ponta. Quando a política ela foi pensada e implantada estavam conscientes dessa necessidade e também sabiam quem seria esse suporte: as mães.


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