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Estado, Pandemia e Mulheres - Parte 3

Estado, Pandemia e Mulheres: educação à distância como a nova imposição estatal em prol do patriarcado


Autora: Mônica Sapucaia

Artigo publicado na Revista Latinoamericana Del Colegio Internacional de Filosofia


O Estado desenhou a saída educacional à pandemia transformando as mães em tutoras das suas crianças. O Poder Público decidiu que iríamos cumprir essa função e a nós, coube apenas nos resignar.


Obviamente não está nas portarias, regras e leis que será a mãe a responsável, mas tinham todos consciência de que caberia a nós essa função, até porque os homens nunca estiveram ao cargo dessas obrigações. O Estado de forma organizada nos obriga a gerir a educação formal enquanto mantemos também à distância o trabalho remunerado, como se dizendo que essa sempre fora obrigação nossa e ele, o Estado, estava apenas nos aliviando.


As escolhas são impossíveis: caso não cumpríssemos com a educação à distância seríamos responsáveis por deixarmos os nossos filhos e filhas à mercê da ignorância e estaríamos a fugir de uma obrigação inerente a função social de parentalidade: dar educação. Por outro lado, se abdicamos dos empregos, renunciaríamos a mais de um século de caminhar para a autonomia econômica das mulheres, e na maioria das vezes colocaríamos em risco a sobrevivência nossa e das nossas famílias.


O Estado, que foi a ceder ao longo dos tempos as desigualdades formais e pressionado pela luta das mulheres a produzir políticas públicas que nos possibilitasse participar ativamente da sociedade, nos deu um cavalo de pau e num giro de 180 graus expôs o seu compromisso patriarcal. Sem titubear colocou as nossas parcas conquistas na berlinda.


Sabemos que o machismo e o racismo são as mais tristes provas de que o capitalismo não venceu a humanidade, porque os donos do poder preferem perder dinheiro do que incluir as mulheres e os negros. Nessa pandemia a educação à distância tem sido uma prova cabal que o Estado ainda não nos vê como agentes econômicos relevantes e apesar das leis dizerem ao contrário, o Poder constituído ainda imputa a nós, estrutural e formalmente, as tarefas do cuidado.


Assim a institucionalidade estatal reafirma a nossa inferioridade no jogo econômico e nos relega a submissão aos homens. Cabe à (nós), reconhecer essa atitude e combatê-la através da exposição dessa lógica desigual e da exigência de políticas que obriguem a inclusão dos homens nas tarefas de manutenção da vida.


Educar não é apenas aprender conhecimentos catalogados, mas também compreender a sociedade que vivemos e desenvolver os valores e os compromissos essenciais na construção de uma realidade mais igualitária, plural e inclusiva. As crianças de hoje precisam ser ensinadas a lutar contra o sexismo, o racismo, a xenofobia, precisam ver todas e todos como sujeitos integrais de direitos e reconhecer as múltiplas formas de vida em sociedade.


Quando o Estado, em tempos de crise, reforça o papel da mulher na responsabilidade solitária com as crianças reafirma também o seu descompromisso em garantir a igualdade. Logo é urgente que repensemos o Estado que queremos para assim agirmos na transformação dele.

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