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Joaquim, os Power Rangers e a Pandemia

Atualizado: 4 de Set de 2020


Autora: Monica Sapucaia


Meu filho Joaquim, aos 4 anos, durante a pandemia, descobriu os Power Rangers. Entre séries de 1997 e de 2019, ele se diverte com os monstros meio bobos e os meninos heróis. Ontem, enquanto eu me arrumava para dar aula, ele entrou no quarto e me deu o veredicto:

— Mãe, nós não podemos ser Power Rangers porque não temos as habilidades deles! Precisamos ir lá no espaço para aprender.

Assim, sem saber bem como aconteceu, meu filho entendeu que são necessárias habilidades para executar bem uma função. Eu, que demorei anos e muitas páginas para absorver esse conceito, me peguei pensando em como a educação mudou e em como a pandemia acelerou esse processo.

Sabemos como a educação estava, mesmo antes de 2020, em plena revolução. A gama de caminhos para o aprendizado ampliou-se com as novas tecnologias e as novas metodologias. Contudo, hoje, quero falar de nós, os professores. Ser professor é uma função social que mudou muito desde a revolução francesa. Foi a partir do século XVIII que o Estado decidiu educar as crianças para transformá-las em cidadãos capazes de participar da sociedade e da produção e essa decisão possibilitou a expansão do saber e fomentou as grandes revoluções científicas, tecnológicas e artísticas que vivenciamos nos últimos 200 anos. Nesse processo, a figura do professor oscilou desde o mestre que concentrava todo o saber, passando ao disciplinador das rebeldias, normalmente representado pelo professor homem, ao lugar de maternagem, como a substituta das mães, exercida por nós mulheres. Ainda hoje o trabalho do educador sofre com a desvalorização e a pouca compreensão da sua real importância no desenvolvimento socioeconómico da sociedade.

De qualquer forma, nos coube a função de transmitir o conhecimento que detínhamos e aos estudantes a tarefa de absorver e muitas vezes decorar esses conceitos de modo a repeti-los. Para tanto nos era oferecido um espaço físico e um quadro para que escrevêssemos de forma ampliada o que os livros diziam. Foi a partir desse modelo pedagógico que se formaram Paulo Freire, Jean Piaget, Maria Montessori, Anisio Teixera e tantos outros educadores fantásticos. No entanto, apesar dos avanços na educação e da sua contribuição para a construção de uma sociedade mais fraterna, sustentável e garantidora dos direitos humanos, a verdade é que sala de aula plateia, o saber vertical e o modelo único para educar todos tem se mostrado cada vez menos eficaz. O método tradicional tem deixado para trás muita gente boa e ávida para aprender que apenas precisa de um olhar atento e de outros estímulos. Nessa esteira os métodos participativos, que centram no estudante o processo de aprendizagem, incentivam a autonomia e oferecem novas ferramentas têm ganho força nos últimos anos, muito se tem dito sobre como abordar os estudantes, como interagir, ter empatia e transformar o aprender em algo prazeroso e autoral. Entretanto, pouco se tem dito sobre como nós, os professores e professoras formados pelos métodos tradicionais, angariamos essas habilidades e competências para nos tornarmos mediadores do ensino e não apenas transmissores. Aprender a ensinar exige tempo e dedicação, é preciso reaprender principalmente a comunicar o saber, a oferecer novas formas e linguagens, e essa empreitada tem sido uma caminhada solitária para muitos, sem apoio institucional e com pouca compreensão da comunidade académica.

Até aqui, esse texto poderia ter sido escrito em 2019, tudo aqui dito já estava em cena e esses questionamentos fomentavam debates, artigos, seminários sobre educação no século XXI. Eis, então, que chega 2020, e com ele a pandemia que desenhará nosso futuro. Todos nós fomos e continuamos sendo atingidos, ramos económicos vivem crises nunca imaginadas e o amanhã nos parece mais incerto do que há muito tempo. Paralelamente essa pandemia que exige distanciamento social acontece também na era digital, na popularização da internet móvel e na ampla oferta de meios de comunicação virtual.

Sem esquecer as inúmeras de pessoas que não tem acesso à internet, a tela se tornou companhia, ambiente de trabalho e principalmente ambiente de estudo para milhões de pessoas ao redor do mundo. Escolas e universidades tiram da cartola a educação remota e convocam os professores a assumirem essa tarefa. Agora sem espaço físico e quadro de escrever, sem o contacto com o educando, nos vemos obrigados a nos reinventar, não apenas no método de ensino mas também nas e habilidades necessárias para aplicá-los. Se familiarizar com as tecnologias disponíveis passou a ser essencial enquanto utilizá-las em formas mais cognitivas e envolventes. Compreender os métodos participativos e dominar os meios para utilizá-los não são mais suficientes, agora temos que transpor isso para o virtual e quase de forma artesanal, precisamos reaprender a ensinar.

Por isso que ser professor nesse nosso tempo é uma função cada vez mais complexa e estratégica. A nós, cabe buscarmos desenvolver as habilidades e competências necessárias para podermos ajudar aos que estudam connosco para que possam se tornar pessoas e profissionais melhores. Cabe a sociedade e às instituições de ensino incentivar, financiar e defender esse processo de ressignificação do modo de ensinar.

Essa revolução precisa dos professores e professoras como líderes e não apenas como apoiadores e para isso será necessário nos empoderarmos e exigirmos sentar na mesa decisória.


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