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Síndrome de Eduardo e Mônica: A Distribuição do Conhecimento e da Informação

Autora: Vera Gers Dimitrov


“Ela falava coisas sobre o Planalto Central

Também magia e meditação

E o Eduardo ainda tava no esquema "escola, cinema

Clube, televisão"


Cheguei em casa, meu namorado já me esperava com um vinho, lavei as mãos e coloquei uma roupa velha e confortável. Liguei a televisão, sentamos na bancada para conversar um pouco, escolher entre pedir pizza ou cozinhar os restos da geladeira. Um dia normal.


Seria um dia normal se a programação da televisão não fosse um telejornal, do qual escutávamos sobre escândalos de corrupção, esquemas, acções das polícias e por aí vai. Resolvi comentar sobre uma notícia em especial, pois resolvi brincar com meu namorado, “testar a paciência” como dizem. Temos visões políticas diferentes, mas isso nunca atrapalhou a relação, ao contrário gostamos de discutir brigar, concordar e discordar.


Seria uma noite comum se eu não tivesse prestado atenção à televisão, algo raro, pois, de fato não assistimos. Para nossa surpresa, nenhum dos escândalos noticiados em televisão aberta chegou ao seu conhecimento, ele mal sabia do que se tratava, os grupos de WhatsApp ou notícias que apareciam na relação do Google não falavam nada sobre aquelas notícias que diariamente estavam em meus grupos de WhatsApp ou no meu feed do Facebook. Aquele momento foi um choque de civilizações.


Nossos mundos, nossos celulares, nossas informações não se conversavam, não se encontravam. As informações são distribuídas desigualmente. Sim, eu sei, algoritmos, inteligência artificial... Porém, gostaria de chamar a atenção com esse pequeno relato quotidiano para como nossa comunicação, conhecimento e informação são distribuídos e acessados. Será que todos possuem de fato acesso à informação? Acesso ao conhecimento?


Como pensar em conhecimento e informação se nossos meios de acesso automaticamente nos segregam por gostos políticos, de consumo, pessoais, religiosos... Além, como tomar consciência desse processo de “guetização” da informação?


As já extensas jornadas de trabalho, para muitos, um home office que nos obriga a trabalhar mais de dez, doze horas diárias, conectados aos diversos instrumentos tecnológicos diuturnamente, como paramos para reflectir? Quando paramos para pensar? Em seu livro Sociedade do Cansaço, o filósofo Byung-Chul Han diz: “A sociedade do cansaço, enquanto uma sociedade activa, desdobra-se lentamente numa sociedade do doping (...) O doping possibilita de certo modo um desempenho sem desempenho”. É isso, a conexão constante com nosso trabalho, com nosso mundo nos dopa, apaga nossos sentidos. Estamos cansados demais para reflectir sobre as informações que chegam, estamos cansados demais para descansar e pensar.


A polarização política no Brasil é o maior exemplo da desinformação e da distribuição dessas. Como dialogar com o outro, se os referências simbólicos culturais se tornaram mundos diferentes. Essa segregação, portanto, possibilita negar o acesso a novos códigos, novos conhecimentos, reflectindo um modelo de produção da informação em critérios capitalistas, aos moldes de uma linha de montagem. Adriana Simões na década de 90 já debatia o tema, porém, acredito que não imaginávamos as proporções dessa desigual produção e distribuição de informações.










Concluo essa breve divagação pensando que temos a sorte (eu e meu namorado) de padecer da síndrome do Eduardo e Mônica, porém, nem todos a tem. A polarização na política, a fábrica de fake news, a impossibilidade de dialogar quando o acesso à informação e ao conhecimento são mal distribuídos nos mergulharão em tempos sombrios.


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