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“Zoom Fadigue”: O que fazer quando a solução se torna o problema?

Autora: Paula Brasil


O isolamento social forçado, usado para conter a pandemia de Covid-19, provocou uma nova realidade e obrigou a todos se adaptarem, trazendo uma outra rotina e mudando o jeito de trabalhar, de participar de reuniões e também dos encontros familiares e de como curtir uma happy hour. Trouxe mudanças também na forma de (re)produção dos saberes, e de como dar ou assistir aulas. O uso e abuso de ferramentas de videoconferência se transformou na rotina da pandemia do coronavírus, afinal, a solução enfrentada para reverter o forçoso isolamento social foi trocar as relações pessoais por videochamadas, sejam elas com apenas entre duas pessoas, sejam aquelas em grupo. Mas isso pode causar diversas consequências, muitas ainda não conhecidas, à nossa mente e ao nosso corpo(1). 

Embora os seres humanos tenham evoluído enquanto animais sociais, adaptando-se às várias formas de interação nas sociedades cada vez mais complexas, a detecção dos sinais e das reações nas outras pessoas (com quem se está travando a comunicação) é um processo natural, que requer baixo esforço consciente para a maioria das pessoas, logo, as interações virtuais podem ser muito mais extenuantes para o cérebro do que as travadas física e pessoalmente.


“Antes da Internet, um grande corpo de pesquisas havia demonstrado de forma convincente que o cérebro é algo maleável às demandas e estímulos ambientais, principalmente no que diz respeito ao aprendizado de novos processos, devido à sua capacidade de neuroplasticidade”(2)


As pessoas se envolvem em diversas atividades, inclusive algumas delas sendo realizadas concomitante ou simultaneamente, mas sem haver uma dedicação por completo a uma única ação, em particular. “Os psicólogos denominam esta situação de ‘atenção parcial contínua’ e aplica-se tanto aos ambientes virtuais como aos reais”(3). 


As aulas passaram para a versão online, sendo chamadas de aulas síncronas, com os professores de um dos lados e os diversos estudantes “do outro”. As aulas certamente se tornam menos colaborativas e ficam mais parecidas a um monólogo ou uma gravação de vídeo, em que uma ou duas pessoas conversam e as outras ouvem e interagem por meio dos chats. 


O impacto na estrutura, função e desenvolvimento cognitivo de nossos cérebros, que este novo canal de conexão, informação, comunicação e tempo de tela está tendo ainda não é muito claro. 


Mas os efeitos são muitos. E diversos. Sejam os efeitos para o professor – que fala sozinho, com algumas interações e pouca troca – sejam para os alunos, que, apenas por procurarem se concentrar na aula e sem haver maiores possibilidades de interação e produção de diálogo, precisam dividir a atenção de maneira prolongada com o ambiente em que se encontra (umas vezes outras pessoas conversando paralelamente, outras com música, reformas nos vizinhos, televisão ou aula de filhos, cuidando de crianças e afazeres domésticos) e, mesmo sem se ter produzido nada, esta divisão prolongada de atenção gera uma sensação desconcertante de exaustão,. “O cérebro fica sobrecarregado pelo excesso de estímulos desconhecidos, ao mesmo tempo que se tenta concentrar para encontrar pistas não verbais que não consegue encontrar”(4).


Além disso, os seres humanos usam uma variedade de vocalizações, gestos e movimentos sintonizados para se comunicar, e contam com respostas precisas dos outros para saber se estão sendo compreendidos. A isso se dá o nome de sincronia. “Se um atraso for introduzido a esse sistema, mesmo que seja de apenas milissegundos, inconscientemente nossos cérebros acabam por registrar isso como um problema e passa a trabalhar para tentar superá-lo e restaurar a sincronia”(5).


Durante um diálogo, o cérebro não se concentra apenas nas palavras. 


Ele recolhe — como se fizesse, digamos, um “zoom” — significados adicionais a partir de dezenas de sugestões não verbais, como olhares, movimentos do corpo e até a frequência respiratória. Essas manifestações ajudam a criar uma percepção holística do que está sendo transmitido e do que é esperado em resposta do ouvinte(6).


Especificamente, a maior parte da pesquisa existente pode ser separada em três domínios específicos, examinando como a internet está afetando: a) atenção (ou seja, como o fluxo constante de informações online, avisos e notificações competindo por nossa atenção pode encorajar os indivíduos a deslocarem sua concentração em vários fluxos de mídia de entrada - e as consequências que isso pode ter para tarefas de troca de atenção versus atenção sustentada); b) memória e conhecimento (ou seja, até que ponto contamos com a Internet como nosso principal recurso informativo e como as propriedades exclusivas do acesso à informação online podem afetar a forma como processamos novas memórias e valorizamos nosso conhecimento interno); c) cognição social (junto com as consequências pessoais e sociais de cada vez mais incorporar nossas redes sociais, interações e status no mundo virtual. 


Assim, é importante que saibamos: as videochamadas são (ou parecem ser) uma solução elegante para o momento, mas desgastam a mente e geram efeitos que ainda serão (muito) sentidos por todos nós. Nos próximos textos iremos trabalhar algumas dicas e sugestões de como diminuir ou amenizar essas consequências!


1 SKLAR, Julia. ‘Fadiga Zoom’ – Videochamadas em Excesso e os Efeitos no Cérebro. Disponível em: https://veja.abril.com.br/tecnologia/zoom-fatigue-o-esgotamento-provocado-pelo-excesso-de-videoconferencias/. Acesso em out/2020.

2 Tradução livre dos autores, cf.: FIRTH, Joseph et. alli. The “online brain”: how the Internet may be changing our cognition. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/wps.20617. Acesso em out/2020.

3 SKLAR, Julia. ‘Fadiga Zoom’. op. cit.

4 SKLAR, Julia. ‘Fadiga Zoom’. op. cit.

5 LANCHA, Luciana & LANCHA Jr, Antonio Herbert. A fadiga Zoom e dos encontros e reuniões virtuais. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/a-fadiga-zoom-e-dos-encontros-e-reunioes-virtuais/. Acesso em out/2020.

6 LOPES, Andre. Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videconferências. Disponível em: https://veja.abril.com.br/tecnologia/zoom-fatigue-o-esgotamento-provocado-pelo-excesso-de-videoconferencias/. Acesso em out/2020


Referências:

FIRTH, Joseph et. alli. The “online brain”: how the Internet may be changing our cognition. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/wps.20617. Acesso em out/2020.

LANCHA, Luciana & LANCHA Jr, Antonio Herbert. A fadiga do Zoom e dos encontros e reuniões virtuais. Disponível em: https://saude.abril.com.br/blog/com-a-palavra/a-fadiga-do-zoom-e-dos-encontros-e-reunioes-virtuais/. Acesso em out/2020.

LOPES, Andre. Zoom fatigue: o esgotamento provocado pelo excesso de videoconferências. Disponível em: https://veja.abril.com.br/tecnologia/zoom-fatigue-o-esgotamento-provocado-pelo-excesso-de-videoconferencias/. Acesso em out/2020.

SKLAR, Julia. ‘Fadiga Zoom’ – Videochamadas em Excesso e os Efeitos no Cérebro. Disponível em: https://veja.abril.com.br/tecnologia/zoom-fatigue-o-esgotamento-provocado-pelo-excesso-de-videoconferencias/. Acesso em out/2020.

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